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Discurso pró-Bolsonaro: como populismo digital virou o cotidiano mesmo após campanha eleitoral?


O blogueiro Allan dos Santos cumprimenta o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) durante sessão da CPMI das Fake News, em 5 de novembro de 2019.

© Foto / Agência Senado / Roque de Sá

A comunicação do Governo Federal tem uma dimensão oculta alimentada por dinheiro público, privado e voluntários radicalizados. O objetivo é promover a agenda de Jair Bolsonaro sem exibir o rosto. A Sputnik Brasil ouviu especialistas para entender o quadro.

Esse setor oficioso de comunicação tem sempre um objetivo: perseguir adversários e defender o presidente de maneira coordenada em redes sociais como Twitter, Facebook e WhatsApp. Mobilizado desde, pelo menos, a campanha presidencial, este setor segue operando até hoje. 

Ainda em 2018, surgiram informações sobre a opacidade da estratégia digital do então presidenciável do PSL. De acordo com o jornal Folha de S. Paulo, empresários bancaram contratos de até R$ 12 milhões para o envio massivo de mensagens pró-Bolsonaro no WhatsApp. A loja de departamentos Havan estaria entre as empresas envolvidas no esquema. Como a doação empresarial é vedada pela legislação eleitoral e mensagens só podem ser enviadas para números obtidos pelo próprio candidato, a prática seria ilegal. 

Novas informações apareceram com a CPMI das Fake News, instaurada pelo Congresso em setembro de 2019. Dados enviados pelo Facebook à CPMI mostraram que a página do Instagram “Bolsofeios” foi criada por Carlos Eduardo Guimarães, assessor parlamentar do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP). A ligação entre “Bolsofeios” e o assessor pode ser feita porque a página foi criada em um computador da Câmara dos Deputados e com o email de Guimarães. Após a divulgação das informações, a conta que publicava material laudatório ao clã presidencial e de ataque contra adversários políticos foi apagada. 

Secretário parlamentar do “zero três”, Guimarães recebeu em março deste ano o salário líquido de mais de R$ 13 mil, informa a Câmara dos Deputados. Antes de trabalhar para Eduardo Bolsonaro, Guimarães teve o mesmo cargo de setembro de 2006 até fevereiro de 2015 no gabinete do então deputado Jair Bolsonaro, mostram dados obtidos pela Agência Pública por meio de pedido de lei de acesso à informação.

O sigilo da conta Bolsofeios foi quebrado após a deputada federal Joice Hasselmann (PSL-SP) afirmar em depoimento à CPMI que a página participava do grupo de conversa privada “SECRETO2 G.O.” no Instagram. Trechos dos diálogos dentro do grupo foram repassados pelo Facebook ao Congresso e publicados pelo jornal O Globo. Em outubro de 2019, durante o racha no PSL que resultou na saída de Bolsonaro do partido em que foi eleito presidente, a conta “snapnaro” assegurou ser preciso “pegar pesado com os traidores” e “Bolsofeios” respondeu: “Amanhã é o Julian”. Segundo o jornal, trata-se de uma referência ao deputado federal Julian Lemos (PSL-PB). 

Populismo na esfera digital

Para a antropóloga Letícia Cesarino, a estratégia de comunicação bolsonarista pode ser entendida como uma espécie de “populismo digital” porque tenta sempre organizar seu discurso em dois pólos: nós contra eles, amigos contra inimigos. 

“Você está em um grupo ou em outro, é sobre você sentir repulsa pelo outro e sentir atração por quem é do seu grupo. Os memes trabalham muito com isso. A ‘feminista feia, nojenta’, isso é uma política de formação de grupo binária que opera no nível dos afetos, [Ernesto] Laclau já falava isso do populismo pré-digital”, avalia a professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) à Sputnik Brasil

Ernesto Laclau foi um filósofo político argentino estudioso dos populismos clássicos de líderes como Juan Domingo Perón e Getúlio Vargas. Ele tentou demonstrar que o populismo não é uma exclusividade de um ou outro espectro político, mas sim um modo de elaborar política ligado à formação de identidades coletivas. Analista da estratégia de comunicação bolsonarista, Cesarino alerta que o populismo sem limites pode virar fascismo. 

A professora da UFSC acompanha grupos bolsonaristas no WhatsApp e acredita haver uma coordenação dos conteúdos por autores não identificados. De acordo com Cesarino, existem “ondas de conteúdo” que indicam que certos temas e pautas surgem de maneira “não espontânea”. 

Doutor em biologia é “um m..da”

“A TV Cultura está como uma égua, e o [governador João] Doria com as rédeas na mão, chamando quem quer só para semear caos, histeria e desespero”, diz, subindo algumas oitavas, o blogueiro e jornalista Allan dos Santos no canal do Youtube Terça Livre.

Descontente com a decisão da TV Cultura de elaborar uma entrevista com o doutor em biologia Atila Iamarino, a quem Santos classificou como “um m..da”, o blogueiro que já foi recebido por Bolsonaro duas vezes no Palácio do Planalto faz suas transmissões abaixo de uma série de retratos que incluem Pedro II e o escritor e guru Olavo de Carvalho. 

Iamarino foi entrevistado sobre a pandemia de coronavírus e Santos acredita que a imprensa o utilizou para elaborar “histeria” e prejudicar a economia. A opinião de Iamarino contrasta com a de Olavo de Carvalho, que assegurou para seus milhares de seguidores que a pandemia de COVID-19 “não existe”. 

A jornalista Vera Magalhães, responsável por conduzir e apresentar a entrevista com o doutor em biologia pela Universidade São Paulo (USP), foi classificada por Santos no Twitter como “veia doente, louca, histérica, maluca”.

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Visitando o amigo @jairmessiasbolsonaro com a família toda.

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Allan dos Santos é um personagem da CPMI das Fake News. Em depoimento em novembro de 2019, o blogueiro foi perguntado pela deputada federal Luizianne Lins (PT-CE) a razão de uma empresa em que tem participação, a TL Produção de Vídeos e Cursos Ltda, ter sido registrada na Receita Federal com o e-mail do empresário João Bernardo Barbosa. Em sua resposta, Santos assegurou que o empresário com participação na rede de fast-food Giraffas e em empresas no Brasil e nos Estados Unidos é um “voluntário” e “grande fã” do Terça Livre. 

Durante o depoimento, Santos também falou que poderia abrir seu sigilo fiscal, bancário e telefônico, mas depois recuou. 

Inspiração dos EUA?

A inspiração do Terça Livre é Alex Jones, um conspiracionista dos Estados Unidos que foi condenado a pagar US$ 100 mil por inventar sobre um massacre que deixou 20 crianças mortas na Escola Sandy Hook, na cidade de Newtown, em 2012. 

Santos encontrou Jones em fevereiro deste ano durante a conferência conservadora CPAC, realizada nos Estados Unidos. Nos bastidores do evento que contou com Eduardo Bolsonaro como palestrante, o blogueiro bolsonarista esteve com Jones e publicou registro em sua rede social. Jones, assegurou Santos, serviu como “inspiração” do Terça Livre. Já o conspiracionista dos EUA assegurou: “Estamos todos juntos nisso, como você diz: Deus, família e pátria”.

Responsável pelo site Infowars, Jones é um negacionista das vacinas, defensor da tese da existência de um suposto “genocídio branco”, acredita que o homem nunca pisou na Lua e que o atentado terrorista de 11 de setembro de 2001 foi praticado pelos próprios Estados Unidos. Banido do Facebok, Twitter, Instagram, Jones vende dezenas de produtos em sua loja virtual, inclusive um suposto suplemento que aumenta os níveis de testosterona. 

BLACKDO41255798

Allan dos Santos tem 300 mil seguidores no Twitter, mas a lista de pessoas a quem o jornalista recebido por Bolsonaro segue é mais seleta, são apenas algumas centenas de contas. Entre elas está o perfil BLACKDO41255798, que se descreve como “apenas um memeiro” de Fortaleza, no Ceará. 

O perfil BLACKDO41255798 segue no Twitter políticos que foram apontados pela agência de checagem Aos Fatos como disseminadores de desinformação e têm relação íntima com o Governo Federal. Os irmãos Flávio e Eduardo Bolsonaro, além dos deputados federais Daniel Silveira e Carlos Jordy, são seguidos pela conta 

O “memeiro” nordestino também segue oito contas apócrifas que fazem campanha irrestrita de Bolsonaro e perseguem seus opositores. Todas elas não tem foto dos reais autores das postagens ou identificação de quem escreve as publicações. Somadas, as oito contas apócrifas têm 1,1 milhão de seguidores.

Uma dessas contas apócrifas de grande alcance é a página Bolsonéas. De acordo com o depoimento da deputada Joice Hasselmann na CPMI das Fake News, a página integrava o grupo “SECRETO2 G.O.” no Instagram, que contava com a participação de assessor parlamentar de Eduardo Bolsonaro

Reportagem da Folha de S. Paulo de 2018 indica que o responsável pela Bolsonéas é o técnico de radiologia Leonardo Barros, de 31 anos.

Procurado por e-mail pela Sputnik Brasil, Santos não respondeu se conhece os perfis bolsonaristas apócrifos citados e também qual sua relação com o empresário João Bernardo Barbosa.

Dinheiro não explica tudo 

O consultor de TI Carlos Afonso elaborou parte de uma rede de notícias falsas e distorcidas até 2018, quando resolveu expor o que sabia. Com o pseudônimo de Luciano Ayan, escrevia manchetes sensacionalistas para sites que eram republicados para a base de milhões de seguidores nas redes sociais do Movimento Brasil Livre (MBL). 

Em entrevista à Sputnik Brasil, Afonso conta que os sites em que participou, Ceticismo Político e Jornalivre, geravam uma receita média de US$ 4,5 mil por mês em 2018. Para ele, Allan dos Santos é uma das figuras centrais da máquina de comunicação bolsonarista, mas há também contribuidores voluntários.

“É muito parecido com a estrutura da alt-right [dos EUA] porque você tem os principais ativadores que ficam o dia inteiro pilhando as pessoas em termos de discursos extremistas, eles usam muito medo, rancor e ressentimento”, afirma Afonso à Sputnik Brasil. “Tem muita gente que trabalha de maneira voluntária, senão não funcionaria. Se você pagar para muita gente, uma hora alguém pula fora e vai acabar contando.”

Já Olavo de Carvalho é avaliado como uma espécie de “liderança intelectual” de grupos radicalizados e propagador de teorias da conspiração como o “marxismo cultural” — tese que guarda semelhanças com “bolchevismo cultural” usado por nazistas contra seus opositores na Alemanha das décadas de 1930 e 1940. 

Ato em defesa da Lava Jato em Copacabana, Rio de Janeiro, em 25 de agosto de 2019.
© Sputnik / Thales Schmidt
Ato em defesa da Lava Jato em Copacabana, Rio de Janeiro, em 25 de agosto de 2019.

O técnico de TI afirma que passou a receber ameaças de ter seus dados pessoais vazados por contas apócrifas no Twitter após conversar com a imprensa sobre os mecanismos de desinformação na internet. 

Misoginia e machismo

A relatora da CPMI das Fake News, deputada federal Lídice da Mata (PSB-BA), afirma à Sputnik Brasil que há “grandes indícios” da existência de um setor oficioso de comunicação bolsonarista e que o Congresso está empenhado em seguir “investigando” o assunto após a renovação do prazo de trabalho da CPMI. A deputada também assegurou que o machismo e a misoginia são traços comuns da comunicação de Bolsonaro e de seus seguidores.

“O presidente da República geralmente briga com mulheres jornalistas e não com homens jornalistas. Isso é reflexo de uma certa característica do presidente de tentar buscar alvos tidos como ‘mais frágeis’, mais possíveis de serem atacadas no nível que ele faz. A rede de ataque também demonstra isso. Ela é extremamente misógina, machista. Isso tudo faz parte de uma estratégia de atemorização, de tentar meter medo. Acham que as mulheres vão se atemorizar com isso, é preciso entender que estamos em um outro tempo no mundo”, afirma Mata.

O deputado federal Eduardo Bolsonaro entrou com ação no Supremo Tribunal Federal (STF) para suspender a prorrogação da CPMI das Fake News e determinar que as sessões já ocorridas sejam declaradas inválidas. O mesmo STF conta com um inquérito sobre fake news — que chegou, segundo informações do Jornal Correio Braziliense, ao nome do vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos – RJ) como suposto mentor da estrutura.

A socióloga Esther Solano avalia que a verve bélica é inseparável da prática política de Bolsonaro. Professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e organizadora do livro “O rancor como política” (Editora Boitempo), Solano relembra que Bolsonaro elaborou carreira no Congresso por meio de declarações “racistas, misóginas e antidemocráticas” e que o presidente entende a política na forma “bélica, de confronto, do inimigo, como uma guerra”.

“Não existe Bolsonaro sem discurso de rancor, não existe extrema direita sem discurso de rancor justamente porque essa é a forma como os líderes da extrema direita sabem e entendem a política. Muitas vezes as pessoas pensam que discurso de rancor é só uma cortina de fumaça para esconder políticas neoliberais, para esconder políticas conservadoras e retrógradas. Eu não concordo, acho que o discurso de rancor é a forma com qual a extrema direita tenta entender a política, é o ethos político deles, a forma como eles fazem política. Eu duvido que Bolsonaro soubesse elaborar política de uma outra forma”, afirma Solano à Sputnik Brasil.

As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik




Fonte: © Sputnik

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