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Qual seria o futuro para o dólar como moeda de reserva global?


Bitcoin e uma nota de dólar (imagem ilustrativa)

© Sputnik / Yevgeny Biyatov

Quando há instabilidade econômica, os investidores querem aplicar o dinheiro em algo sólido. O dólar tem sido a moeda de reserva, mas seus dias parecem estar contados.

O dólar americano, que elaborou 235 anos em 6 de junho, tem reinado como a principal moeda de reserva global.

Diversos especialistas analisaram para a Sputnik as razões do persistente domínio do dólar, ao mesmo tempo que ponderaram as chances de as moedas digitais ajudarem os países a se libertar do jugo de um sistema financeiro dominado pelo dólar americano.

Dólar, elemento chave do sistema financeiro internacional

O dólar ocupa atualmente uma posição dominante no sistema financeiro internacional, representando mais de 50% do total das reservas de ouro e divisas dos países do mundo.

Cerca de 90% das operações de câmbio são realizadas em dólares, ao mesmo tempo que aproximadamente 65% das obrigações de dívida internacional estão igualmente tituladas na moeda norte-americana, observou a analista da Freedom Finance, Elena Belyaeva.

Mais de dois terços do total de cédulas emitidas pelo FED (banco central dos EUA) estão em circulação fora dos Estados Unidos.

Segundo Valery Weisberg, diretor do Departamento Analítico da IC Region, várias razões explicam este predomínio.

“São elas o domínio econômico dos EUA, inclusive como resultado das duas guerras mundiais na Europa, bem como a existência de um mercado financeiro e de ações muito grande e diversificado em termos de instrumentos”, falou ele.

Sergei Khestanov, conselheiro do diretor-geral da Otkrytie Broker, aponta para uma boa combinação de liquidez dos ativos em dólar, inflação baixa e previsível, e ainda a popularidade entre todos os fornecedores e consumidores.

“Mesmo o euro ainda não pode competir com o dólar nas transações internacionais”, acrescentou.

“O dólar difere de muitas moedas pela baixa inflação [nos EUA, esta é mantida em cerca de 2% desde 1981], bem como por não haver casos de default a nível federal nos EUA desde 1933 [não incluindo o default técnico de curto prazo em 1979], falou Belyaeva.

Procura-se alternativa ao dólar

Ao mesmo tempo, cresce a vontade de fugir da dependência do dólar, sobretudo por, nos últimos 20 anos, os EUA terem aumentado constantemente a pressão das sanções, limitando os países, empresas e indivíduos tidos por “culpados”, assegurou Weisberg.

“Fatores políticos – o confronto com os EUA – tornaram-se o principal motivo da luta contra a dominação do dólar”, falou por sua vez Khestanov.

“Entretanto, alguns países conseguiram elevar o nível de desenvolvimento do sistema de pagamentos de maneira a assegurar o comércio bilateral com um nível suficiente de oferta de dinheiro. Além disso, eles têm fortalecido suficientemente a macroeconomia: a inflação baixa e a estabilidade econômica reduz a volatilidade das taxas de câmbio”, assegurou Weisberg sobre os passos que estão sendo empreendidos por certas nações para se afastarem do dólar.

Contudo, e segundo Weisberg, os mercados financeiros nos EUA ainda são os maiores e nem todos os instrumentos em outras moedas nacionais têm o nível adequado de liquidez.

“Além disso, deveria haver um consenso internacional em escala global, como foi o Bretton Woods, sobre a possibilidade da maior parte da economia mundial usar outras moedas além do dólar (por exemplo, o yuan). E, finalmente, deveria haver a disponibilidade de um determinado Banco Central para assumir parte do fardo do FED e garantir os processos financeiros”, acrescentou Weisberg.

Padrão ouro

“Assim, a falta de uma alternativa comparável nos impede de desistir do dólar”, opinou Khestanov.

Como resultado do Acordo de Bretton Woods em 1944, o dólar norte-americano foi oficialmente considerado como moeda de reserva global, apoiado pelas maiores reservas mundiais de ouro.

Assim, ao invés das reservas de ouro, outros países acumularam reservas de dólares americanos. Como precisavam de um lugar para guardar seus dólares, os países começaram a comprar títulos do Tesouro americano, considerando-os um porto seguro para seu dinheiro.

Conforme o Acordo de Bretton Woods, os EUA garantiram às agências governamentais estrangeiras e bancos centrais a troca de dólares por ouro a uma razão de 35 dólares por onça. No entanto, o desenvolvimento dos mercados financeiros, as crises e a inflação foram minando o sistema.

Como resultado, quase 30 anos depois – em 1973 – após a Conferência Internacional da Jamaica, iniciou-se a transição do sistema de Bretton Woods, com suas taxas de câmbio fixas, para taxas flutuantes.

Em 1976 o sistema monetário da Jamaica começou a vigorar e ainda hoje está em funcionamento. De acordo com as novas regras, o padrão ouro – ligando as moedas ao ouro – foi abolido.

As moedas de reserva oficialmente reconhecidas são o dólar, libra esterlina, franco suíço, iene japonês, marco alemão, franco francês (após 2000, o marco e o franco foram substituídos pelo euro).

O sistema financeiro internacional possui um regime de moeda flutuante livre e suas taxas são determinadas com base na demanda e oferta do mercado.

Fim do reinado do dólar?

Entretanto, a crise financeira global que começou em 2008 com a falência do banco Lehman Brothers levantou a questão da necessidade de mudar o sistema monetário atual.

Neste contexto, os especialistas também estão pensando em uma alternativa global ao dólar. Essa nova moeda de reserva poderá ser digital, acredita Belyaeva.

“Agora a principal tendência é para as moedas digitais, que podem ser a base do novo sistema financeiro internacional, que será o próximo após o sistema monetário da Jamaica, onde o principal lugar ainda é ocupado pelo dólar”, concluiu Weisberg.

As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik


Fonte: © Sputnik

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